Arquivo do Autor: lschiavon

Risco de morte por febre amarela pode ser identificado mais cedo

Peter Moon  |  Agência FAPESP – De cada 100 pessoas que são picadas por mosquitos infectados com o vírus da febre amarela, cerca de 10% desenvolverão sintomas da doença. Embora a maioria dos infectados com o vírus da febre amarela não desenvolva a doença, cerca de 40% dos que apresentam sintomas acabam morrendo.

A febre amarela vem sendo estudada há mais de um século, sendo que existe uma vacina bastante eficaz desde 1938. Apesar disso, ainda não se conheciam os sintomas preditivos específicos que pudessem ser utilizados pelos médicos de modo a estabelecer um prognóstico do grau de severidade da evolução da doença para cada paciente.

“Muitos pacientes que dão entrada no sistema de saúde com diagnóstico de febre amarela ainda não estão muito doentes. Vários chegam caminhando ao hospital, mas o que se observa nos dias seguintes é um quadro de piora acentuada, que muitas vezes leva ao óbito”, disse Esper Kallás, professor titular do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

“Ainda não se conheciam vários marcadores que pudessem ser empregados pela equipe médica para avaliar o prognóstico de cada paciente, permitindo identificar quais seriam os pacientes com mais chances de evoluir para um quadro de maior gravidade e poder tratá-los de acordo com tal prognóstico, elevando as chances de tratamento e cura”, disse Kallás.

Esses marcadores acabam de ser identificados e descritos em artigo na revista The Lancet Infectious Diseases. Assinam o artigo Kallás e outros 19 pesquisadores ligados à FMUSP, ao Instituto de Medicina Tropical (IMT) da FMUSP, ao Instituto de Infectologia Emílio Ribas e ao laboratório Diagnósticos da América (Dasa). O trabalho teve apoio da FAPESP por meio de projeto de pesquisa coordenado pela professora Ester Sabino, diretora do IMT e professora no Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da FMUSP.

O objetivo do estudo foi identificar os preditores de morte medidos na admissão hospitalar em um conjunto de pacientes internados no Hospital das Clínicas da FMUSP e no Instituto de Infectologia Emílio Ribas durante o surto de febre amarela de 2018 na periferia da cidade de São Paulo.

Entre 11 de janeiro e 10 de maio de 2018, 118 pacientes com suspeita de febre amarela foram internados no Hospital das Clínicas e outros 113 pacientes no Emílio Ribas.

Após uma triagem para a confirmação do diagnóstico, o estudo foi resumido a 76 pacientes (68 homens e 8 mulheres) com infecção confirmada pelo vírus da febre amarela, com base no RNA do vírus da febre amarela detectável no sangue (74 pacientes) ou no vírus da febre amarela confirmado apenas no laudo da autópsia (dois pacientes). Dos 76 pacientes, 27 (36%) morreram durante o período de 60 dias após a internação hospitalar.

“A infecção da febre amarela foi confirmada pela técnica de PCR [reação em cadeia da polimerase] em tempo real no sangue coletado na admissão ou em tecidos na autópsia. Sequenciamos o genoma completo do vírus da febre amarela de indivíduos infectados e avaliamos os achados demográficos, clínicos e laboratoriais na admissão. Investigamos se qualquer uma dessas medidas se correlacionava com o óbito do paciente”, disse Kallás.

Marcadores da doença

Os pesquisadores identificaram que a febre amarela tende a ser mais grave quanto mais velho é o paciente. “Trata-se de um aspecto intuitivo. Faz sentido que os idosos sofram mais e tendam a ter um desfecho pior. Quanto mais velho o paciente, maiores são as chances de o quadro piorar”, disse Kallás.

A contagem de neutrófilos elevada, o aumento da enzima hepática AST (aspartato aminotransaminase) e a maior carga viral também estão associados ao risco de morte. Neutrófilos (ou leucócitos polimorfonucleares) são as células sanguíneas que fazem parte essencial do sistema imune inato.

Todos os 11 pacientes com contagem de neutrófilos igual ou superior a 4.000 células/ml e carga viral igual ou superior a 5.1 log10 cópias/ml (ou seja, aproximadamente 125 mil cópias do vírus por mililitro de sangue) morreram, em comparação com apenas três mortes entre os 27 pacientes com contagens de neutrófilos menor que 4.000 células/ml e cargas virais de menos de 5.1 log10 cópias/ml (menos de 125 mil cópias/ml).

“O organismo pode estar tentando combater alguma outra coisa que não é o vírus da febre amarela. Nossa hipótese é que a multiplicação do vírus nas células do intestino possa estar permitindo a passagem de bactérias que vivem no intestino para a corrente sanguínea. Essa poderia ser a razão para o acionamento do sistema imune e o aumento na produção de neutrófilos. Outra possibilidade é que, no doente, a resposta imune estaria desequilibrada, o que faria a pessoa piorar”, disse Kallás.

Outro marcador de severidade é o aumento da carga viral no sangue dos pacientes.

“Assim como ocorre com a idade avançada, parece lógico pensar que quanto maior for a quantidade de vírus no sangue, pior será o prognóstico do paciente. Mas é a primeira vez que alguém descreveu isso em um estudo”, disse Kallás.

Por outro lado, os pesquisadores constataram que a coloração amarelada na pele dos doentes, tão característica que está no nome da doença, não é um marcador de severidade no momento da entrada do paciente no hospital.

“A coloração amarelada, consequência da destruição das células do fígado pelo vírus, só aparece em casos de piora avançada. Em nosso estudo, nenhum dos pacientes que veio a óbito chegou ao hospital ostentando coloração amarelada”, disse Kallás.

Sabino destaca que o estudo representa um avanço muito importante, ao permitir que, “no caso de um surto de febre amarela como o que ocorre atualmente no Brasil, o pior em décadas, médicos realizam a triagem de pacientes no momento de entrada nos serviços de saúde, identificando aqueles pacientes que potencialmente poderão evoluir para casos mais severos. Com a antecipação nas internações em unidades de terapia intensiva, aumentam-se as chances de sobrevivência”. 

Diagnóstico precoce

Após décadas de pesquisa da febre amarela, não havia até agora marcadores associados ao risco de morte dos pacientes em um ambiente com maiores recursos de assistência à saúde.

“As grandes epidemias de febre amarela que ocorreram em países com maior grau de desenvolvimento e, portanto, com melhores meios médico-científicos para identificar tais marcadores, aconteceram há décadas, praticamente todas antes do desenvolvimento da vacina, que começou a ser testada há 80 anos, antes da Segunda Guerra Mundial”, disse Kallás.

Em 2017, quando do início do surto recente de febre amarela no Brasil, Kallás, Sabino e colaboradores realizavam um trabalho de acompanhamento dos pacientes com dengue, chikungunya e zika, na tentativa de prever a transmissão e a distribuição no Brasil daquelas doenças igualmente provocadas por arbovírus, os vírus que são transmitidos aos humanos através da picada de insetos, como os mosquitos.

“Quando surgiram os primeiros sinais do surto de febre amarela, rapidamente percebemos que nos encontrávamos em condições ideais para acrescentar a febre amarela ao foco das nossas investigações, com vistas a detectar os fatores preditivos da severidade da doença. A colaboração entre o Instituto de Infectologia Emílio Ribas e o Hospital das Clínicas da FMUSP foi fundamental para fazer esta contribuição”, disse Kallás.

A identificação de marcadores prognósticos em pacientes pode ajudar os médicos a priorizar a internação na unidade de terapia intensiva, pois o estado geral dos pacientes deteriora rapidamente.

“Coloque-se no lugar de um médico que examina um paciente diagnosticado com febre amarela e que acaba de ser internado. Não se sabia qual seria o prognóstico mais provável daquele paciente. O que se verificaria seria uma piora muito acentuada e rápida, ou não. Nosso trabalho ajudará a entender o que ocorre com os pacientes. Aqueles que contarem com todos os marcadores de severidade no momento da internação serão os que terão mais risco de morrer. Logo, será possível aos médicos estabelecer prioridades, enviando tais pacientes mais precocemente à terapia intensiva”, disse Kallás.

Ao mesmo tempo, a alocação de recursos seria melhorada para priorizar exames laboratoriais mais úteis para determinar se um paciente poderia ter um resultado melhor.

O artigo Predictors of mortality in patients with yellow fever: an observational cohort study (doi: https://doi.org/10.1016/S1473-3099(19)30125-2), de Esper G. Kallás, Luiz Gonzaga D’Elia Zanella, Carlos Henrique V. Moreira, Renata Buccheri, Gabriela B. F. Diniz, Anna Carla P. Castiñeiras, Priscilla R. Costa, Juliana Z. C. Dias, Mariana P. Marmorato, Alice T. W. Song, Alvino Maestri, Igor C. Borges, Daniel Joelsons, Natalia B. Cerqueira, Nathália C. Santiago e Souza, Ingra Morales Claro, Ester C. Sabino, José Eduardo Levi, Vivian Avelino-Silva e Yeh-Li Ho, está publicado em: www.thelancet.com/journals/laninf/article/PIIS1473-3099(19)30125-2/fulltext.

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

MBA Gestão da Inovação em Saúde do Instituto Butantan está com inscrições abertas

O MBA Gestão da Inovação em Saúde tem duração de 18 meses. O curso é formado por 3 ciclos, com objetivos específicos e conteúdos independentes, que se complementam promovendo a formação do Gestor de Inovação.

Ciclo 1 – Inovação, Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia

Ciclo 2 – Pesquisa, Desenvolvimento e Produção em Saúde

Ciclo 3 – Parcerias, Negócios, Financiamento e Gestão de Projetos Inovadores

As inscrições para o MBA Gestão da Inovação em Saúde no Instituto Butantan estão abertas até 22/07/2019.

Para inscrever-se, clique aqui.

Para saber mais, clique aqui.

Instituto de Saúde da SES/SP celebra 50 anos

Em evento realizado em sua sede no dia 16/07/2019, foi celebrado o aniversário de 50 anos do Instituto de Saúde.
Estiveram presente autoridades, antigos dirigentes, convidados externos e de vários setores da SES/SP.
Dr. Sergio Muller, coordenador da CCTIES participou de uma das mesas, reforçando a importância do Instituto de Saúde.

 

 

Durante a comemoração foi lançado o BIS – Boletim do Instituto de Saúde v.20 n.1 de julho de 2019 com o tema “Mestrado profissional em saúde coletiva: traduzindo conhecimento para o SUS”.

O evento foi gravado e transmitido online. Para assistir, clique aqui.

Acesso aberto sem custo adicional

Karina Toledo  |  Agência FAPESP – Formalizada por portaria do CTA da FAPESP no início de 2019, a política da FAPESP para acesso aberto a publicações científicas determina que artigos resultantes de projetos e bolsas financiados pela Fundação tenham seu conteúdo divulgado em acesso aberto por meio do arquivamento de uma cópia do trabalho em um repositório público, ficando disponível para consulta via web por qualquer pessoa e sem custo.

A política implementada pela FAPESP não obriga, incentiva ou recomenda a publicação em revistas de acesso aberto, especialmente naquelas que cobram APCs (Article Processing Charges).

O diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, tem enfatizado, em palestras que apresenta sobre o tema em universidades paulistas, que “a portaria não interfere de maneira alguma na liberdade de os pesquisadores escolherem o periódico mais adequado para a divulgação de seus resultados”.

De acordo com Luiz Nunes de Oliveira, coordenador adjunto da diretoria científica da FAPESP para Programas Especiais e Colaborações em Pesquisa, “o que a política propõe é que, seguindo as regras estipuladas por cada periódico – escolhido de forma autônoma pelos autores do trabalho –, seja garantido o mais amplo acesso possível aos resultados das pesquisas apoiadas pela FAPESP, portanto, aumentando sua visibilidade e seu potencial de impacto. O acesso aberto torna os resultados acessíveis não só a cientistas, mas a estudantes, praticantes profissionais e outros interessados”.

Os elementos-chave para o acesso aberto são os repositórios de artigos científicos, que as melhores universidades do mundo têm criado de forma acelerada. Praticamente todas as revistas científicas permitem que uma cópia de uma de três versões do artigo (pré-print, pós-print ou pdf do artigo publicado) seja arquivada, logo após a publicação, em um repositório institucional de acesso público.

A versão pré-print é a versão originalmente submetida para publicação, a versão pós-print é aquela com as revisões que os autores fizeram e que foi aceita para publicação e o pdf do artigo é o pdf editado e formatado pela revista.

Após decisão do Conselho Superior da FAPESP, de 2008, de instituir uma política para acesso aberto, foram criados repositórios institucionais como o do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp), o da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e o da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Por meio dos repositórios as instituições aumentam sua visibilidade institucional e promovem a utilização dos resultados de seus projetos de pesquisa.

Algumas editoras e sociedades científicas, porém, impõem limitações para a divulgação de cópias da versão final dos trabalhos, entre elas um período de embargo que pode ser de seis meses a um ano. Outras são mais liberais e permitem até mesmo que o arquivo pdf publicado pela revista seja disponibilizado pelos repositórios institucionais, como é o caso da American Physical Society.

“Há revistas que permitem apenas a divulgação do pré-print imediatamente após a publicação e, após um período, liberam o pós-print. Outras permitem o oferecimento da versão pós-print; e algumas a versão do pdf publicado pela revista. Tem de avaliar caso a caso e divulgar no limite do possível”, disse Oliveira.

Ele destacou também que cabe à biblioteca da instituição à qual o pesquisador está vinculado apoiar e orientar os pesquisadores, zelar pelo cumprimento das regras e dos prazos estipulados pelos periódicos e realizar as operações necessárias para a disponibilização.

Incentivo das bibliotecas

Brito Cruz enfatiza que a política da FAPESP define que cabe às instituições organizar a forma de atender à política da FAPESP sem onerar o tempo dos pesquisadores. Espera-se também das bibliotecas que sejam incentivadoras da iniciativa, oferecendo treinamento e informações atualizadas.

“Recomendamos que as bibliotecas universitárias instruam os autores a informá-las por meio digital sempre que um trabalho for submetido, enviando já a cópia do pré-print ou do pós-print e as informações bibliográficas. Cabe à biblioteca fazer o seguimento do processo, incluir no repositório a versão permitida pelos editores e, ao final, avisar o pesquisador quando isso ocorrer, enviando a ele o link do repositório”, disse.

Para facilitar a identificação das normas de cada revista foi organizado o site Sherpa/Romeo que apresenta, de forma atualizada, as normas adotadas pelas editoras ou sociedades científicas em relação ao acesso aberto de artigos. O site cobre as normas de milhares de revistas e centenas de editoras.

Caso o trabalho seja publicado por alguma das 293 revistas da biblioteca virtual SciELO (Scientific Electronic Library Online), programa apoiado pela FAPESP, não há necessidade de depositar cópia em repositórios, pois esses periódicos garantem a divulgação instantânea do conteúdo na web. Mas pode ser útil para a universidade ter toda a sua produção científica disponível em seu próprio repositório.

Segundo o diretor científico da FAPESP, além de garantir acesso amplo aos resultados de pesquisas financiadas com dinheiro público, a portaria traz outras vantagens. “Essa política tem ajudado a redefinir o papel das bibliotecas, que estão se convertendo em organizações que, além de manterem o estoque do conhecimento, tornam-se essenciais na difusão do conhecimento gerado pelas universidades. Alguns desses repositórios estão ficando muito bons, dando mais visibilidade para a pesquisa da instituição, o que significa mais citações e impacto e facilita colaborações, contribuindo para a ciência avançar mais rapidamente”, disse Brito Cruz.

Política para Acesso Aberto às Publicações Resultantes de Auxílios e Bolsas da FAPESP: www.fapesp.br/12592.

 

Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP, fala para a Unesp Notícias sobre a política da FAPESP para acesso aberto a publicações científicas. 

 

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.